Controle de Deriva

Controle de deriva é o conjunto de atividades metrológicas voltadas a monitorar, quantificar e conter a variação lenta e progressiva das indicações de um instrumento de medição entre calibrações. O conceito apoia-se na definição de deriva instrumental do Vocabulário Internacional de Metrologia (VIM 2012, JCGM 200:2012, item 4.21): “variação contínua ou incremental, ao longo do tempo, de uma indicação, devida a mudanças nas propriedades metrológicas de um instrumento de medição”. Controlar a deriva é, portanto, acompanhar essa variação para que ela permaneça dentro de limites aceitáveis.

Origem e contexto normativo

O controle de deriva nasce da necessidade prática de garantir que um instrumento calibrado hoje continue confiável amanhã. Enquanto o VIM 2012 define a deriva instrumental e a distingue da estabilidade (item 4.19), a ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 (publicada em 28/03/2017) exige, no item 7.7, o monitoramento da validade dos resultados por meio de verificações intermediárias. A ISO 10012:2003 complementa ao tratar da confirmação metrológica e da definição de intervalos de calibração. No Brasil, o INMETRO e a CGCRE avaliam esses controles nas auditorias de acreditação da Rede Brasileira de Calibração (RBC).

Causas da deriva

A deriva instrumental resulta de alterações internas do equipamento, sendo as principais causas o envelhecimento, a temperatura e o uso. O envelhecimento (aging) afeta componentes como cristais de quartzo, células de carga e resistores de referência, que mudam de característica mesmo sem operação. A temperatura altera ganho e offset de circuitos e desloca o zero de sensores sem compensação térmica. O uso e o desgaste mecânico deformam molas, membranas e superfícies de medição. Somam-se ainda contaminação, umidade e alívio de tensões mecânicas residuais introduzidas na montagem ou no transporte.

Como controlar a deriva

O controle de deriva combina três ferramentas principais. As verificações intermediárias são checagens rápidas entre calibrações, feitas com um padrão de verificação estável, para confirmar que o instrumento permanece dentro dos limites. As cartas de tendência (cartas de controle) registram graficamente os desvios ao longo do tempo, com limites de alerta e de ação, permitindo visualizar o sentido e a velocidade da deriva. A revisão dos intervalos de calibração ajusta a periodicidade à velocidade observada: instrumentos que derivam rápido exigem intervalos menores; os muito estáveis podem ter intervalos ampliados de forma justificada, conforme o histórico.

Exemplos

Na prática, o controle de deriva aparece em diversas situações. Em balanças analíticas, uma verificação diária com massa padrão revela deriva de zero causada por variação de temperatura. Em transmissores de pressão de 4–20 mA, a comparação periódica com um padrão detecta deriva de span. Em padrões elétricos, como resistores de referência, a deriva anual é monitorada em ppm/ano por intercomparação. Em termômetros de referência, a verificação no ponto do gelo (0 °C) identifica deriva do sensor entre calibrações.

Diferença: deriva x erro x histerese

Esses três conceitos são frequentemente confundidos, mas descrevem fenômenos distintos. O erro de medição é a diferença entre o valor indicado e o valor de referência em um instante. A deriva é a variação desse erro ao longo do tempo, decorrente de mudanças internas do instrumento. A histerese é a diferença de indicação para um mesmo valor do mensurando conforme ele é atingido por valores crescentes ou decrescentes, ou seja, depende do sentido da variação, e não do tempo. Em resumo: o erro é instantâneo, a deriva é temporal e a histerese é direcional. Distinguir esses fenômenos é essencial ao analisar um certificado de calibração, pois cada um exige uma ação corretiva diferente: o erro pode ser corrigido por ajuste ou por correção aplicada ao resultado; a deriva exige revisão do intervalo de calibração; e a histerese aponta problemas mecânicos de folga ou atrito no instrumento.

Relação com incerteza e rastreabilidade

O controle de deriva relaciona-se diretamente com dois pilares da metrologia: a incerteza de medição e a rastreabilidade metrológica. A deriva estimada entre calibrações costuma entrar como uma componente da incerteza (contribuição do tipo B), conforme o GUM (JCGM 100:2008), aumentando a incerteza atribuída ao resultado à medida que o tempo desde a última calibração cresce. Além disso, a deriva não monitorada compromete a cadeia de rastreabilidade ao Sistema Internacional de Unidades (SI), pois o valor de referência estabelecido na calibração deixa de representar o estado atual do instrumento. Por isso, um programa robusto de controle de deriva é parte integrante da confirmação metrológica e sustenta a validade dos resultados exigida pela ISO/IEC 17025:2017.

Referências Técnicas

  • VIM 2012 — JCGM 200:2012, Vocabulário Internacional de Metrologia, itens 4.19 e 4.21.
  • ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 — Requisitos gerais para a competência de laboratórios, itens 6.4, 6.5 e 7.7.
  • ISO 10012:2003 — Sistemas de gestão de medição.
  • GUM — JCGM 100:2008, Guia para a expressão da incerteza de medição.
  • INMETRO / CGCRE — diretrizes de acreditação da Rede Brasileira de Calibração (RBC).

Cursos Recomendados

Aprofunde seus conhecimentos com os cursos online da Cirius Quality: