Ensaio em Laboratório: Definição, Tipos e Aplicação na ISO 17025
Quando o cliente entrega ao laboratório uma amostra de aço para saber se o limite de resistência atende à especificação, está pedindo um ensaio. Quando entrega um manômetro para saber se sua indicação é confiável, está pedindo uma calibração. A diferença parece sutil mas é estrutural: ensaios caracterizam itens; calibrações estabelecem relações entre instrumentos e padrões.
A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 cobre laboratórios de ensaio E calibração sob requisitos comuns, com diferenciações específicas onde necessário. No Brasil, laboratórios de ensaio acreditados compoem a Rede Brasileira de Laboratórios de Ensaio (RBLE), enquanto os de calibração formam a Rede Brasileira de Calibração (RBC). Em 2026, o site do INMETRO lista aproximadamente 800 laboratórios na RBLE e 600 na RBC.
Este guia apresenta os tipos de ensaio, suas particularidades em relação à calibração, e como aplicar requisitos da 17025:2017 específicos para operações de ensaio.
TL;DR: Ensaio é a determinação de uma ou mais características de um item segundo procedimento, com resultado quantitativo ou qualitativo. Diferente de calibração (que estabelece relação instrumento-padrão), ensaio caracteriza o item em si. Laboratórios de ensaio acreditados pela CGCRE compoem a RBLE.
O que é Ensaio? Definição Técnica Completa
Conforme VIM 2012 (Vocabulário Internacional de Metrologia), ensaio é ‘operação técnica que consiste em determinar uma ou mais características de um produto, processo ou serviço, de acordo com um procedimento especificado’. O resultado pode ser quantitativo (medida numérica: limite de resistência = 520 MPa) ou qualitativo (classificação: aprovado/reprovado).
Diferença estrutural entre ensaio e calibração: o ensaio caracteriza o ITEM em si (sua composição, propriedade mecânica, comportamento físico, atividade biológica), enquanto calibração caracteriza a RELAÇÃO entre um instrumento e um padrão. Em laboratórios híbridos é comum confundir: medir a pressão que um instrumento indica é ensaio (caracteriza o instrumento como objeto); estabelecer correções a aplicar baseado em padrão é calibração.
Histórico e Evolução do Conceito de Ensaio
A formalização de procedimentos de ensaio em normas internacionais remonta à criação da International Organization for Standardization (ISO) em 1947, com base em normas nacionais ainda mais antigas (DIN alema de 1917, ANSI norte-americana de 1918, BSI britânica de 1901, AFNOR francesa de 1926). A ABNT foi fundada em 1940 como organismo brasileiro de normalização.
A ABNT NBR ISO/IEC 17025 (versões 1999, 2005 e 2017) unificou requisitos para laboratórios de ensaio e calibração sob uma só norma. Antes disso, vigiam normas separadas (ISO Guide 25 para ambos, EN 45001 europeia específica). A unificação permitiu que laboratórios com escopo híbrido (que fazem ensaio e calibração) operem com sistema de gestão único.
Princípios Fundamentais de Ensaio
- Caracterização do item: Ensaio determina propriedades do próprio item, não estabelece relação com referência padronizada.
- Método documentado: Procedimento específico (normalizado, adaptado ou desenvolvido internamente) deve estar disponível, validado quando aplicável.
- Rastreabilidade dos instrumentos usados: Embora ensaio não seja calibração, os instrumentos usados no ensaio precisam ter rastreabilidade metrológica garantida.
- Amostragem quando aplicável: Para itens contínuos ou em granel, amostragem segue protocolo formal com plano estatístico.
- Manuseio e cadeia de custódia: Item de ensaio passa por processo formal de recebimento, identificação, armazenamento e devolução.
Principais Tipos de Ensaio em Laboratórios Brasileiros
Os ensaios cobertos pela ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 abrangem ampla diversidade de naturezas:
- Ensaios mecânicos: Tração, compressão, flexão, dureza, impacto, fadiga. Normas típicas: ABNT NBR ISO 6892, ABNT NBR ISO 6506.
- Ensaios químicos: Composição, pureza, contaminação, pH, condutividade. Normas: ABNT NBR ISO 11885 (ICP), ABNT NBR ISO 22117.
- Ensaios físicos: Densidade, viscosidade, temperatura, condutividade térmica. Normas variadas por área de aplicação.
- Ensaios elétricos: Isolamento, rigidez dielétrica, EMC. Normas: ABNT NBR IEC 60068 (climaticas), ABNT NBR IEC 61000 (EMC).
- Ensaios biológicos e microbiológicos: Atividade biológica, esterilidade, contagem microbiana. Normas: ABNT NBR ISO 11737 (esterilidade).
- Ensaios não destrutivos (END): Ultrassom, radiografia, partículas magnéticas, líquido penetrante. Normas: ABNT NBR ISO 9712 (qualificação pessoal).
- Ensaios destrutivos: Tração, ruptura por pressão, fadiga até falha. Item é consumido no ensaio.
Ensaio vs Calibração: Diferenças Estruturais
| Aspecto | Ensaio | Calibração |
|---|---|---|
| Objetivo | Caracterizar o item | Estabelecer relação instrumento-padrão |
| Item de entrada | Amostra de produto/material | Instrumento de medição |
| Resultado tipico | Características (resistência, pureza) | Correções e incertezas |
| Rede no Brasil | RBLE | RBC |
| Norma central VIM | VIM 2012 item 2.32 | VIM 2012 item 2.39 |
| Capítulo 7 da 17025 | 7.1, 7.2, 7.3 (amostragem) | 7.1, 7.2, 7.6 (incerteza) |
Caso Prático: Implementação de Laboratório Híbrido (Ensaio + Calibração)
Contexto
Empresa de autopecas implementa laboratório interno que fará: (a) ensaios mecânicos de peças produzidas (dureza, tração); (b) calibração de instrumentos de medição usados na produção (manômetros, paquimetros). Pretende acreditação CGCRE em ambas as operações.
Problema identificado
Como estruturar sistema de gestão unico cobrindo ambas as operações? Quais os requisitos específicos de cada?
Abordagem aplicada
Implementação em 18 meses sob orientação Cirius: (mês 1-3) sistema de gestão base comum aos dois setores; (mês 4-6) procedimentos específicos — PGC para calibração, métodos de ensaio (MEs) para ensaios; (mês 7-9) validação de métodos não normalizados; (mês 10-12) gestão de incerteza diferenciada (ensaio: incerteza do resultado; calibração: incerteza da correção); (mês 13-15) proficiência em ambos os escopos; (mês 16-18) auditorias internas e preparação final.
Resultado obtido
Acreditação CGCRE simultânea em RBC (3 grandezas) e RBLE (5 tipos de ensaio). Auditor destacou integração do sistema de gestão como exemplar.
Aprendizado
Laboratórios híbridos podem operar sob sistema de gestão único, com requisitos técnicos diferenciados para cada operação.
Erros Comuns em Auditorias CGCRE sobre Ensaio
- Confundir ensaio com calibração: Aplicar requisitos de calibração em ensaio (especialmente sobre incerteza) sem entender contexto. Constatação de mau julgamento técnico.
- Ausência de validação de método: Aplicar método de ensaio sem validação documentada quando não é normalizado.
- Falta de plano de amostragem: Para ensaios em itens em granel ou continúos, não documentar plano de amostragem estatístico.
- Cadeia de custódia incompleta: Manuseio do item entre etapas sem registro adequado, especialmente em ensaios biológicos ou forênsicos.
- Confundir instrumento de ensaio com padrão de calibração: Instrumento usado em ensaio precisa ser calibrado (rastreabilidade), mas não é ele mesmo padrão.
Garantia da Validade dos Resultados de Ensaio
Emitir um resultado de ensaio confiável depende de um conjunto de mecanismos de controle exigidos pelo item 7.7 da ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017, que trata da garantia da validade dos resultados. Esses controles asseguram que o ensaio permanece estável e que eventuais desvios sejam detectados antes que comprometam a decisão do cliente.
O monitoramento se divide em controles internos e externos. Entre os internos (item 7.7.1) destacam-se:
- Materiais de referência certificados (MRC): garantem rastreabilidade metrológica e permitem avaliar a tendência;
- Cartas de controle: acompanham a estabilidade ao longo do tempo, sinalizando deriva ou perda de precisão;
- Réplicas e amostras cegas: avaliam repetitividade e ausência de viés do analista;
- Verificações intermediárias de equipamentos: confirmam que padrões e instrumentos seguem dentro da especificação entre calibrações.
Entre os externos (item 7.7.2), a participação regular em ensaios de proficiência (conforme ABNT NBR ISO/IEC 17043) e em comparações interlaboratoriais compara o desempenho do laboratório com seus pares de forma independente, revelando vieses sistemáticos que controles internos isolados dificilmente detectariam. Os dados resultantes devem ser analisados, registrados e, quando apontarem tendência fora dos critérios, acionar ação conforme item 7.7.3. Esse conjunto estruturado de evidências é o que sustenta a afirmação de que um resultado é válido, distinguindo um ensaio simplesmente executado de um ensaio metrologicamente confiável e defensável perante auditorias da CGCRE do INMETRO.
Amostragem e Manuseio de Itens de Ensaio
A confiabilidade de um ensaio começa antes da bancada: depende da amostragem e do manuseio adequado do item, requisitos tratados nos itens 7.3 e 7.4 da ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017. Uma amostra não representativa ou degradada invalida qualquer ensaio, por mais preciso que seja o método empregado — o conceito metrológico de que o resultado se refere ao item tal como recebido é central aqui.
Quando o laboratório realiza a amostragem (item 7.3), deve dispor de um plano e de procedimentos que controlem os fatores capazes de afetar a validade, registrando dados como local, condições ambientais, data, hora e o método de amostragem aplicado. A representatividade estatística da amostra em relação ao lote é o objetivo central.
No manuseio dos itens de ensaio (item 7.4), os controles essenciais incluem:
- Identificação inequívoca: sistema que evita troca ou confusão entre amostras durante todo o ciclo;
- Registro de condição no recebimento: documentar anomalias (embalagem violada, temperatura inadequada, volume insuficiente) e consultar o cliente quando houver dúvida sobre a adequação;
- Preservação e armazenamento: controlar temperatura, umidade e prazo de validade para evitar degradação do mensurando;
- Rastreabilidade da cadeia de custódia: garantir o histórico do item, crítico em ensaios com implicação legal.
Falhas nessa etapa estão entre as causas mais comuns de resultados questionáveis e de não conformidades. Tratar a amostra com o mesmo rigor metrológico aplicado ao método é uma boa prática que diferencia laboratórios maduros e protege a validade do resultado final emitido sob o escopo acreditado.
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- Guia Comentado ISO/IEC 17025:2017 – bundle completo de implementação para laboratórios de calibração e ensaio, com checklist, calculadoras e casos práticos.
- Guia Comentado ISO 10012:2003 (SGM) – para a gestão dos sistemas de medição e a confirmação metrológica.
Perguntas Frequentes sobre ensaio em laboratório
Qual a diferença prática entre ensaio e calibração?
Ensaio determina características de um item (sua dureza, pureza, resistência). Calibração estabelece relação entre instrumento e padrão (correções e incertezas para usar o instrumento). Pergunta-chave: o item que entra é algo que produzo ou uso (ensaio) ou é um instrumento de medir (calibração)? Laboratório que mede dureza de uma engrenagem faz ensaio. Laboratório que mede a indicação de um durometro faz calibração.
Todo ensaio precisa usar método normalizado?
Não. A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 (item 7.2) permite três tipos: método normalizado (publicado em norma técnica reconhecida — aceita sem validação adicional, apenas verificação), método adaptado (baseado em norma mas modificado — requer validação parcial das mudanças), método desenvolvido internamente (criado pelo laboratório — requer validação completa). Método de literatura científica enquadra-se em desenvolvido internamente quando aplicado em laboratório específico.
Como garantir rastreabilidade em ensaio?
Através de três elementos integrados: (1) instrumentos de medição usados no ensaio devem ter rastreabilidade metrológica via calibração em laboratório RBC; (2) materiais de referência certificados quando aplicáveis (especialmente em química); (3) método de ensaio validado — a validação demonstra que o método produz resultados rastreavelmente correlacionados com o mensurando.
Ensaios qualitativos têm incerteza?
Sim, embora expressa de forma diferente. Para ensaios qualitativos (aprovado/reprovado, presença/ausência), incerteza é expressa como probabilidade de classificação correta, taxas de falsos positivos e falsos negativos, ou nível de confiança do resultado. JCGM 106:2012 trata da avaliação de incerteza em ensaios qualitativos.
Como tratar ensaio destrutivo vs não destrutivo?
Ensaios destrutivos comprometem ou consomem o item. Aplicações: certificação de material em lote (não pode reensaios), validação de produto, pesquisa. Ensaios não destrutivos (END) preservam o item: aplicações em itens valiosos, infraestrutura, peca individual. ABNT NBR ISO 9712 trata qualificação de pessoal em END. Procedimentos diferentes pelas implicações de descarte vs preservacao do item.
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Conclusão
Ensaios em laboratórios brasileiros acreditados (RBLE) cobrem ampla diversidade de naturezas técnicas, mas compartilham requisitos comuns da ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017: método documentado, validação ou verificação, rastreabilidade dos instrumentos, manuseio adequado do item. Distinguir claramente ensaio de calibração, escolher método apropriado (normalizado quando disponível), validar quando não normalizado, e manter rastreabilidade rigorosa dos instrumentos usados é o caminho da qualidade real. Para laboratórios híbridos, é possível operar sob sistema de gestão único com requisitos técnicos diferenciados.
Termos relacionados a este artigo no Glossário Cirius Quality: Calibração, Método normalizado, Validação de método, RBLE.





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