Sistema de Gestão em Laboratórios - metrologia e calibracao em laboratorio acreditado ISO/IEC 17025

Sistema de Gestão em Laboratórios: Como Estruturar Conforme ISO 17025

Em um laboratório brasileiro acreditado pela CGCRE, o trabalho técnico é sustentado por um sistema de gestão que organiza políticas, processos, recursos e responsabilidades. É o que distingue laboratórios profissionais de operacoes informais. A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 dedica a seção 8 inteiramente ao sistema de gestão, com requisitos específicos em 8 elementos.

A norma oferece duas opções de implementação: Opção A (sistema conforme requisitos da própria 17025) e Opção B (sistema via SGQ ISO 9001:2015 corporativo). Em ambos os casos, requisitos técnicos das seções 4 a 7 continuam totalmente aplicáveis. Sistema de gestão não é burocracia — é o que sustenta consistência e melhoria contínua dos serviços.

Este guia apresenta a estrutura completa do sistema de gestão em laboratórios brasileiros: 8 elementos do seção 8, escolha entre Opções A e B, modelo enxuto da Cirius Quality para laboratórios pequenos e médios.

TL;DR: Sistema de gestão é o conjunto integrado de políticas, procedimentos, registros e responsabilidades que estabelece como o laboratório atinge seus objetivos de qualidade. ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 (seção 8) exige sistema documentado com 8 elementos centrais. Opções A (direto) ou B (via ISO 9001).

O que é Sistema de gestão? Definição Técnica Completa

Conforme ABNT NBR ISO 9000:2015, sistema de gestão é ‘conjunto de elementos inter-relacionados ou interativos de uma organização para estabelecer políticas e objetivos, e processos para alcançar esses objetivos’. Em laboratórios conforme ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017, sistema de gestão cobre: políticas, documentação, controle de documentos e registros, gestão de riscos e oportunidades, melhoria, ações corretivas, auditorias internas, análises críticas pela direção.

É crítico distinguir sistema de gestão (geral) de sistema de gestão da qualidade (SGQ, mais específico). Sistema de gestão cobre toda a operação organizacional. SGQ é subconjunto focado em qualidade. Em laboratórios, costuma-se usar ‘sistema de gestão’ incluindo qualidade como elemento central, sem distinção estrita.

Histórico e Evolução do Conceito de Sistema de gestão

O conceito de sistema de gestão em laboratórios formaliza-se com a ISO/IEC Guide 25 de 1990 e suas versões subsequentes da ISO/IEC 17025 (1999, 2005, 2017). A edição 2017 trouxe a mudança estrutural: introdução explícita de duas opções de implementação (A e B), e novo elemento ‘ações para abordar riscos e oportunidades’ (item 8.5).

No contexto brasileiro, a CGCRE tem priorizado em auditorias de 2024 e 2025 a verificação efetiva de implementação do sistema de gestão, não apenas a existencia documental. Sistemas formais sem aplicação prática geram constatações frequentes em laboratórios da Rede Brasileira de Calibração (RBC).

Princípios Fundamentais de Sistema de gestão

  • Adequação à escala: Sistema proporcional ao tamanho e complexidade do laboratório.
  • Foco em operação, não em forma: Requisitos cobrem o que o laboratório precisa fazer, não forma estrutural detalhada.
  • Documentação enxuta: Procedimentos necessários e suficientes, sem burocracia exagerada.
  • Aplicação pratica: Sistema documental sem aplicação é problema, não solução.
  • Melhoria contínua: Sistema evolui ao longo do tempo, com ações corretivas e análise crítica.

Os 8 Elementos do Sistema de Gestão (Seção 8 da 17025:2017)

Sistema de gestão conforme Opção A inclui:

  1. 8.2 Documentação do sistema: Políticas, objetivos, compromissos. Política da qualidade e imparcialidade são documentos centrais.
  2. 8.3 Controle de documentos: Aprovação, revisão, identificação, distribuição, retirada de obsoletos.
  3. 8.4 Controle de registros: Retenção, proteção, integridade, acessibilidade. Tempo mínimo 5 anos para registros técnicos.
  4. 8.5 Ações para abordar riscos e oportunidades: Novo na edição 2017. Identificação, avaliação, planejamento, acompanhamento.
  5. 8.6 Melhoria: Oportunidades, planos de ação, acompanhamento.
  6. 8.7 Ação corretiva: Tratamento estruturado de não conformidades com analise de causa raiz.
  7. 8.8 Auditorias internas: Programa anual cobrindo todo o sistema; auditores qualificados.
  8. 8.9 Análises críticas pela direção: Mínimo anual com pauta específica cobrindo todos os elementos.

Opção A vs Opção B: Como Escolher

Cenário Opção A (Direto) Opção B (via 9001)
Sem ISO 9001 existente Recomendada Esforco desnecessário
Com ISO 9001 corporativa robusta Duplica esforco Recomendada
Pequeno laboratório (até 30 colaboradores) Tipicamente melhor Pode ser exagerada
Médio/grande integrado a grupo Pode ser limitada Tipicamente melhor
Custo total implementação + manutenção Menor Maior (duas certificações)

Caso Prático: Implementação de Sistema Enxuto

Contexto

Laboratório de calibração de pressão, 6 técnicos, sem ISO 9001, primeira acreditação RBC. Pretende sistema enxuto adequado à escala.

Problema identificado

Como estruturar sistema de gestão funcional, sem burocracia exagerada?

Abordagem aplicada

Implementação em 90 dias sob orientação Cirius (Opção A): (mês 1) políticas centrais (qualidade, imparcialidade), organograma, cartas de delegação; (mês 2) 9 procedimentos essenciais (controle de documentos, registros, não conformidade, ação corretiva, análise crítica, auditoria interna, melhoria, riscos e oportunidades, método); (mês 3) primeira auditoria interna, primeira análise crítica pela direção, preparação para CGCRE. Lista mestra em planilha estruturada, não sistema sofisticado.

Resultado obtido

Sistema enxuto e funcional. Auditoria CGCRE: 0 constatações maiores, sistema considerado adequado à escala.

Aprendizado

Sistema de gestão eficaz não exige software sofisticado. Documentação enxuta + aplicação pratica é melhor que sistema sofisticado mas não usado.

Erros Comuns em Auditorias CGCRE sobre Sistema de gestão

  • Sistema sobredimensionado: 50 procedimentos quando bastam 10. Sistema burocrático vira problema operacional.
  • Sistema documental sem aplicação: Procedimentos arquivados, equipe não conhece nem aplica. Constatação garantida em auditoria.
  • Ausência de análise crítica pela direção regular: Reuniões protocolares sem decisões documentadas. Item formal mas ineficaz.
  • Decisão entre Opções A e B não declarada: Implementar parcialmente requisitos de ambas. Sistema inconsistente.
  • Falta de revisão em mudanças: Sistema documentado para situação inicial sem atualização em mudanças significativas.

Opção A vs. Opção B: Critérios para Escolher a Estrutura Documental

A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 oferece, no item 8.1.2 e 8.1.3, dois caminhos equivalentes para o sistema de gestão. A Opção A exige que o laboratório implemente, no mínimo, todos os requisitos dos itens 8.2 a 8.9 (documentação, controle de registros, ações para riscos e oportunidades, melhoria, ação corretiva, auditorias internas e análise crítica pela direção) de forma autossuficiente, sem depender de outra norma. Já a Opção B permite que laboratórios já certificados na ISO 9001:2015 e que operem essa estrutura cobrindo as atividades laboratoriais sejam considerados conformes aos requisitos de gestão, desde que o sistema também atenda à intenção dos itens 8.2 a 8.9.

A decisão não é meramente formal. Considere estes fatores antes de optar:

  • Maturidade prévia: laboratórios inseridos em organizações já certificadas ISO 9001:2015 tendem a ganhar eficiência com a Opção B, evitando sistemas paralelos.
  • Escopo do SGQ corporativo: a Opção B só é válida se o sistema de gestão existente abranger efetivamente as atividades técnicas do laboratório — não basta a empresa-mãe ter certificado.
  • Independência operacional: laboratórios autônomos ou terceiros geralmente adotam a Opção A, por controlarem integralmente sua própria documentação.
  • Auditoria da CGCRE: em ambos os casos, o avaliador verifica o atendimento à intenção dos itens 8.2 a 8.9; a Opção B não dispensa evidências específicas das atividades laboratoriais.

Na prática, muitos laboratórios brasileiros acreditados optam pela Opção A por garantir rastreabilidade documental direta aos requisitos da norma, simplificando a avaliação de manutenção da acreditação conduzida pela Coordenação Geral de Acreditação do Inmetro.

Integração entre Requisitos de Gestão (Seção 8) e Requisitos Técnicos (Seções 6 e 7)

Um erro recorrente ao estruturar o sistema de gestão da ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 é tratar a Seção 8 (requisitos de gestão) como um bloco isolado, desconectado dos requisitos de recursos (Seção 6) e de processo (Seção 7). A norma foi concebida de modo que o sistema de gestão sustente tecnicamente a competência laboratorial. A ação corretiva do item 8.7, por exemplo, é frequentemente disparada por um trabalho não conforme identificado no item 7.10 ou por um desvio detectado durante a garantia de validade de resultados do item 7.7.

Essa integração precisa ser desenhada explicitamente nos processos. Veja conexões obrigatórias entre as seções:

  1. Riscos e oportunidades (8.5) alimentam a análise de imparcialidade do item 4.1 e o planejamento de recursos do item 6.
  2. Controle de registros (8.4) abrange os registros técnicos do item 7.5 e os certificados emitidos no item 7.8.
  3. Auditoria interna (8.8) deve cobrir tanto requisitos de gestão quanto técnicos, verificando competência de pessoal (6.2) e validação de métodos (7.2).
  4. Análise crítica pela direção (8.9) consolida indicadores técnicos, resultados de comparações interlaboratoriais e tendências de não conformidades.

Ao mapear essas interfaces em uma matriz de correlação, o laboratório evita lacunas que a CGCRE costuma apontar como não conformidades sistêmicas. A Seção 8 não é burocracia: é o mecanismo que transforma evidências técnicas em decisões de melhoria contínua, garantindo que a competência demonstrada seja sustentada ao longo do ciclo de acreditação.

Aprofunde Seus Conhecimentos com os Guias da Cirius Quality

Para implementar os requisitos da ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 com profundidade e segurança técnica, a Cirius Quality desenvolveu materiais autorais com mais de 40 anos de experiência prática em metrologia e acreditação:

Perguntas Frequentes sobre sistema de gestão em laboratório

Sistema de gestão pode ser implementado em pequeno laboratório?

Sim, escalado à complexidade. Sistema adequado para laboratório com 5 colaboradores será diferente do adequado para 50. O essencial: cobrir os 8 elementos do seção 8 da norma com profundidade proporcional à complexidade do laboratório.

Sistema ISO 9001 e ISO 17025 são iguais?

Sobrepostos mas não idênticos. ISO 9001 trata de sistema de gestão da qualidade em geral. ISO 17025 inclui requisitos técnicos específicos de laboratório nas seções 4 a 7. Para acreditação 17025, requisitos específicos são obrigatórios, independente de também ter ISO 9001.

Quem é responsável pelo sistema de gestão?

Formalmente, a alta direção do laboratório. Operacionalmente, o responsável pela qualidade (ou cargo equivalente) conduz a gestão diária. Em laboratórios pequenos onde funções se sobrepõem, a alta direção pode acumular função de responsável pela qualidade.

Com que frequência revisar o sistema?

Pelo menos anualmente, em análise crítica pela direção (item 8.9). Revisão também em mudanças significativas: revisão de norma técnica relevante, mudança organizacional substantiva, identificação de problema estrutural. Revisão continua é o que distingue sistema vivo de sistema arquivado.

Opção A reduz exigência em relação à Opção B?

Não em qualidade técnica. Reduz apenas requisitos de SGQ formal (não exige certificação ISO 9001 complementar). Requisitos técnicos das seções 4 a 7 da 17025 são idênticos em ambas as opções.

Aprenda Mais com os Cursos Online da Cirius Quality

Para se aprofundar nos temas tratados neste artigo, a Cirius Quality oferece cursos online especializados que detalham metodologias, cálculos e aplicações práticas no contexto da ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017:

Cada curso é conduzido por especialistas com mais de 20 anos de experiência em laboratórios brasileiros, com material didático atualizado em 2026 conforme a versão vigente das normas.

Conclusão

Sistema de gestão é instrumento central que sustenta operação de laboratórios brasileiros acreditados pela CGCRE. Implementar sistema enxuto (focado nos 8 elementos do seção 8 da 17025:2017), adequado à escala do laboratório, com documentação pratica e aplicação efetiva, atualizado anualmente em análise crítica pela direção, transforma essa exigência normativa em diferencial competitivo real. Para laboratórios da Rede Brasileira de Calibração (RBC) e Rede Brasileira de Laboratórios de Ensaio (RBLE), sistema de gestão bem implementado é condição para excelência e melhoria contínua sustentavel.


Termos relacionados a este artigo no Glossário Cirius Quality: Opção A, Opção B, Análise crítica, Auditoria interna.