Desvio Padrão Experimental

O desvio padrão experimental é a medida estatística que caracteriza a dispersão de um conjunto de indicações obtidas ao medir repetidamente uma mesma grandeza sob condições de repetibilidade. Segundo o GUM (JCGM 100:2008), é obtido de uma série de observações independentes e serve de estimativa do desvio padrão da distribuição subjacente. O VIM 2012 (JCGM 200:2012) relaciona o conceito à repetibilidade de medição: quanto menor o desvio padrão experimental, maior a concordância entre resultados sucessivos. É a base do cálculo da incerteza padrão do Tipo A.

Fórmula e o divisor n − 1 (graus de liberdade)

Para uma amostra de n observações, o desvio padrão experimental é calculado por:

s = √[ ∑(xi − x̄)² / (n − 1) ]

Onde xi é cada valor medido, x̄ é a média aritmética e n é o número de medições. Cada diferença (xi − x̄) é um resíduo; elevam-se os resíduos ao quadrado (²), somam-se, divide-se por n − 1 e extrai-se a raiz (√). O divisor n − 1 corresponde aos graus de liberdade: como a média amostral consome um grau de liberdade, restam n − 1 desvios independentes. Essa correção de Bessel torna a estimativa não tendenciosa, evitando subestimar a dispersão real em amostras pequenas.

Relação com a incerteza do Tipo A

No GUM (JCGM 100:2008), a incerteza do Tipo A é avaliada por métodos estatísticos a partir de uma série de observações. O desvio padrão experimental é justamente a ferramenta dessa avaliação. O componente Tipo A entra depois na combinação quadrática com os componentes do Tipo B (avaliados por certificados, especificações e outros meios) para compor a incerteza combinada, que recebe um fator de abrangência k — determinado com apoio dos graus de liberdade e da distribuição t de Student — para gerar a incerteza expandida.

Desvio padrão experimental da média

Quando o resultado reportado é a média de n medições, a incerteza padrão do Tipo A não é s, mas o desvio padrão experimental da média:

u(x̄) = s / √n

Assim, aumentar o número de medições reduz a incerteza associada à média, pois a divisão por √n diminui a dispersão do valor médio.

Exemplos numéricos

Considere cinco leituras de comprimento (mm): 100,02; 100,05; 100,01; 100,04; 100,03. A média é 100,03 mm. Os resíduos (xi − x̄) são −0,01; +0,02; −0,02; +0,01; 0,00 mm. Elevando cada resíduo ao quadrado (²) obtêm-se 0,0001; 0,0004; 0,0004; 0,0001 e 0,0000 mm². A soma dos quadrados vale 0,0010 mm²; dividida por n − 1 = 4 resulta em 0,00025 mm² (variância experimental). A raiz quadrada (√) fornece s ≈ 0,0158 mm. O desvio padrão experimental da média é u(x̄) = 0,0158 / √5 ≈ 0,0071 mm — menor que a dispersão das leituras individuais, consequência direta da divisão por √n.

Note que a variabilidade das leituras reflete tanto a resolução do instrumento quanto pequenas variações de temperatura, posicionamento e influência do operador. Por isso, o cálculo só é válido sob condições de repetibilidade: mesmo operador, mesmo instrumento, mesmo procedimento e curto intervalo de tempo. Alterar qualquer um desses fatores descaracteriza a estimativa e transforma o estudo em uma avaliação de reprodutibilidade.

Diferença: desvio padrão populacional x experimental (amostral)

O desvio padrão populacional (σ) descreve uma população inteira e conhecida, usando o divisor N. O desvio padrão experimental (s), também chamado amostral, trabalha com uma amostra finita de medições e usa o divisor n − 1. Em metrologia raramente se conhece toda a população, por isso o desvio padrão experimental é o parâmetro adotado em laboratórios acreditados pela ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017. Usar erroneamente o divisor N subestima a dispersão. Muitas calculadoras científicas oferecem as duas funções (σn e σn-1 ou s); para dados de medição, sempre selecione a função amostral. Instituições como INMETRO, BIPM e a Rede Brasileira de Calibração (RBC) adotam o arcabouço do GUM, no qual o desvio padrão experimental é peça central da avaliação de incerteza, das cartas de controle estatístico e dos estudos de MSA (repetibilidade e reprodutibilidade).

Referências Técnicas

  • GUM — JCGM 100:2008 (Guia para a Expressão da Incerteza de Medição) — desvio padrão experimental e incerteza do Tipo A.
  • VIM 2012 — JCGM 200:2012 (Vocabulário Internacional de Metrologia) — repetibilidade e dispersão de medições.
  • ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 — requisitos de competência e avaliação de incerteza em laboratórios.
  • INMETRO / RBC — diretrizes de incerteza de medição em calibração.

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