Comparação Interlaboratorial - metrologia e calibracao em laboratorio acreditado ISO/IEC 17025

Comparação Interlaboratorial: Como Funciona e Quando Aplicar

Como provar que seu laboratório está medindo corretamente? Calibrações internas e cartas de controle são úteis, mas não eliminam vieses sistemáticos do próprio sistema de medição. A única forma confiável de detectar problemas está em comparar resultados com outros laboratórios competentes. É isso que faz a comparação interlaboratorial.

A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 (item 7.7.2) lista explicitamente a participação em comparações interlaboratoriais entre as opções de garantia da validade dos resultados. Para laboratórios acreditados pela CGCRE/INMETRO, ela é prática essencial: cobre o escopo de acreditação ao longo do ciclo de 4 anos e demonstra competencia objetivamente.

Este guia apresenta os tipos de comparação interlaboratorial, cálculo do z-score e do critério En, como tratar resultados não satisfatórios e alternativas quando não há provedor disponível para a grandeza específica.

TL;DR: Comparação interlaboratorial é a medição do mesmo item por dois ou mais laboratórios independentes sob condições predefinidas, usada como mecanismo de garantia da validade dos resultados conforme item 7.7 da ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017. Quando organizada por provedor acreditado segundo ABNT NBR ISO/IEC 17043:2011, é chamada de ensaio de proficiência.

O que é Comparação interlaboratorial? Definição Técnica Completa

Segundo a ABNT NBR ISO/IEC 17043:2011 (item 3.4), comparação interlaboratorial é ‘organização, desempenho e avaliação de medições ou ensaios em itens iguais ou similares por dois ou mais laboratórios, de acordo com condições predeterminadas’. A norma distingue comparação em sentido amplo (qualquer comparação entre laboratórios) de ensaio de proficiência (comparação organizada por provedor acreditado com propósito específico de avaliar desempenho).

Em laboratórios brasileiros, há quatro arranjos práticos. Proficiência tradicional: laboratório inscreve-se em programa de provedor acreditado (CGCRE/INMETRO, Cesmec, ISCC, NIST), recebe item, mede em condições rotineiras e envia resultado. Comparação bilateral: acordo direto entre dois laboratórios, com protocolo formal documentado. Comparação multilateral: três ou mais laboratórios participam por iniciativa própria. Comparação interna: diferentes equipes ou equipamentos do mesmo laboratório — válida apenas como complementar, não substitui externa.

Histórico e Evolução do Conceito de Comparação interlaboratorial

Comparações interlaboratoriais formais surgiram no contexto da Convenção do Metro de 1875, com o Bureau International des Poids et Mesures (BIPM) coordenando comparações internacionais entre padrões primários. A formalização como mecanismo de garantia de qualidade laboratorial é mais recente: ABNT NBR ISO/IEC 17043 (provedores de ensaio de proficiência) foi publicada em 2011, com base na ISO/IEC 17043:2010.

No Brasil, a CGCRE/INMETRO mantém programa de proficiência desde 2003 para grandezas críticas (massa, comprimento, pressão, temperatura). Para grandezas não cobertas, laboratórios contratam provedores estrangeiros acreditados (NIST, NPL, PTB) ou organizam comparações bilaterais documentadas.

Princípios Fundamentais de Comparação interlaboratorial

  • Independência entre participantes: Comparações válidas exigem laboratórios independentes em operação, sem comunicação prévia de resultados, sob condições de medição rotineiras.
  • Item homogêneo e estável: O item comparado deve ser idêntico para todos os participantes, sem degradação significativa durante a circulação. Provedores acreditados verificam homogeneidade e estabilidade conforme ISO 13528:2015.
  • Critério estatístico explicito: Avaliação por z-score (comparação com valor de referência) ou critério En (comparação bilateral considerando incertezas). Valores críticos: |z| > 2 questionável, |z| > 3 não satisfatório.
  • Cobertura do escopo no ciclo: Mínimo: cobrir todas as grandezas e faixas do escopo de acreditação ao longo do ciclo de 4 anos. Recomendado: anual para grandezas críticas.
  • Tratamento formal de resultado adverso: Resultado questionável ou não satisfatório é não conformidade que exige tratamento: investigação de causa raiz, avaliação de impacto em resultados emitidos, ação corretiva.

Como Calcular Critérios de Avaliação

Os dois cálculos mais usados em comparações interlaboratoriais são:

  1. Z-score (proficiência tradicional): z = (x – X) / sigma, onde x é o valor do laboratório, X o valor de referência atribuído, sigma o desvio padrão de proficiência.
  2. Critério En (comparação bilateral): En = |x1 – x2| / sqrt(U1^2 + U2^2), onde x1 e x2 são os valores dos laboratórios e U1, U2 as incertezas expandidas (k=2). Se |En| ≤ 1, resultados consistentes.
  3. Critério zeta (entre x e referência com incertezas): zeta = (x – X) / sqrt(U(x)^2 + U(X)^2). Variante do En quando referência tem incerteza relevante.
  4. Critério Q (gravidade): Q = (x – X) / D, onde D é o desvio aceitável definido tecnicamente. Útil quando critérios estatísticos não se aplicam.
  5. Score percentual (ensaios qualitativos): Para ensaios não quantitativos, usa-se percentual de acertos contra referência.
  6. Avaliação consolidada: Combinação de múltiplas rodadas com média ou tendência, especialmente em programas anuais.

Tipos de Comparação Interlaboratorial

Tipo Quem organiza Número de laboratórios Aceitação em auditoria CGCRE
Proficiência tradicional Provedor acreditado ISO/IEC 17043 Tipicamente 10+ Plena
Bilateral com referencia metrológica Acordo entre os 2 lab 2 Plena se documentada
Multilateral informal Iniciativa de um lab 3+ Parcial, complementar
Interna entre equipamentos Próprio laboratório 1 (com múltiplos sistemas) Complementar apenas
Comparação internacional ILAC/CIPM BIPM, regiões metrológicas Centenas Referência internacional

Caso Prático: Proficiência em Calibração de Termômetros

Contexto

Laboratório acreditado RBC para temperatura inscreve-se em proficiência anual do INMETRO. Item: termômetro de resistência de platína, faixa 0 a 100 graus C, calibração em 5 pontos.

Problema identificado

Resultado em 50 graus C: z = 2,4 (questionável). Demais 4 pontos: z entre 0,3 e 1,1 (satisfatórios). Resultado consolidado: questionável.

Abordagem aplicada

Investigação estruturada: (1) reanalise dos dados primarios da medição — sem erro de cálculo; (2) verificação do banho usado — gradiente térmico no centro maior que especificado pelo fabricante; (3) histórico de calibração do banho — deriva nos últimos 18 meses; (4) plano de ação: recalibrar banho, refazer cartas de controle, comunicar 7 clientes que receberam certificados de temperatura na faixa 40-60 graus C nos últimos 6 meses, oferecer reanalise. Verificação de eficácia na proficiência do ano seguinte.

Resultado obtido

Proficiência do ano seguinte: z máximo de 0,8. Todos os 5 pontos satisfatórios. Causa raiz eliminada.

Aprendizado

Resultado questionável não invalida a acreditação automaticamente. Invalida quando não é tratado adequadamente. Investigação profunda transforma o resultado adverso em melhoria estrutural do sistema.

Erros Comuns em Auditorias CGCRE sobre Comparação interlaboratorial

  • Participação em poucos pontos do escopo: Acreditado em 8 métodos, participa de proficiência apenas em 2. Auditoria CGCRE pede plano de cobertura do escopo ao longo do ciclo de 4 anos.
  • Execução em condições não rotineiras: Mobilizar técnico sênior, padrões especiais ou cuidados extras para proficiência não é válido. Deve refletir operação real.
  • Falta de tratamento de resultado adverso: Resultado questionável arquivado sem análise de causa raiz nem ação corretiva. Constatação garantida em auditoria.
  • Ausência de alternativa documentada quando não há provedor: Para grandezas sem provedor, deve haver plano alternativo documentado: comparação bilateral, padrões redundantes, tendência.
  • Tratamento de proficiência como evento isolado: Cada proficiência deve alimentar análise crítica pela direção com histórico temporal e tendências.

Avaliação de Desempenho: En, z-score e ζ-score

O valor de uma comparаção interlaboratorial está na forma objetiva de avaliar o desempenho de cada participante. A norma de referência para esses ensaios de proficiência é a ABNT NBR ISO/IEC 17043, complementada pela ISO 13528, que define os tratamentos estatísticos dos resultados. A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017, no item 7.7.2, exige expressamente que o laboratório monitore seu desempenho mediante comparação com outros laboratórios, sempre que disponível e apropriado.

Os três indicadores estatísticos mais utilizados são:

  • z-score: compara o desvio do resultado em relação ao valor designado, dividido por um desvio-padrão de avaliação. Valores |z| ≤ 2 indicam desempenho satisfatório; entre 2 e 3, questionável; e ≥ 3, insatisfatório.
  • ζ-score (zeta): incorpora a incerteza do laboratório e a do valor designado, sendo mais adequado para calibrações.
  • En (erro normalizado): o mais usado em comparações de calibração, combina o erro com as incertezas expandidas; |En| ≤ 1 é aprovado, |En| > 1 reprovado.

O número En é calculado como a diferença entre o resultado do laboratório e o valor de referência, dividida pela raiz quadrada da soma dos quadrados das incertezas expandidas de ambos. Um |En| > 1 sinaliza que o erro é maior do que as incertezas declaradas conseguem justificar, exigindo investigação de causa raiz. Esses indicadores transformam a participação em evidência objetiva da competência técnica do laboratório. É importante destacar que o z-score depende de um desvio-padrão de avaliação atribuído pelo provedor do ensaio, ao passo que o En depende exclusivamente das incertezas declaradas pelos participantes. Por essa razão, o En é o critério preferido em comparações de calibração, pois testa diretamente a coerência entre o resultado e o orçamento de incerteza informado pelo laboratório, expondo tanto erros sistemáticos quanto incertezas subestimadas.

Tratamento de Resultados Insatisfatórios e Ações Corretivas

Participar de uma comparação interlaboratorial só agrega valor se o laboratório souber reagir adequadamente a um resultado questionável ou insatisfatório. A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 estabelece, no item 7.7.3, que dados das atividades de monitoramento devem ser analisados, usados para controlar e, quando aplicável, melhorar as atividades do laboratório. Um z-score ≥ 3 ou um En > 1 caracteriza um sinal de ação que aciona o processo de gestão de não conformidade (item 7.10) e de ação corretiva (item 8.7).

A investigação de causa raiz deve considerar fontes plausíveis de erro:

  • Padrões e rastreabilidade: deriva do padrão de referência ou erro na cadeia de rastreabilidade.
  • Incerteza subestimada: orçamento de incerteza incompleto, que infla artificialmente o En.
  • Método e procedimento: desvio do procedimento, manuseio da amostra ou condições ambientais fora de controle.
  • Competência do operador: falha de execução ou interpretação.
  • Erro de transcrição: equívocos no registro ou no reporte do resultado.

Após identificar a causa, o laboratório implementa ações corretivas e, sempre que possível, confirma a eficácia em uma rodada subsequente do ensaio de proficiência ou em uma comparação suplementar. É fundamental também avaliar o impacto sobre resultados já emitidos a clientes, podendo exigir notificação formal. Auditores da CGCRE examinam com rigor justamente a rastreabilidade dessas ações: um resultado insatisfatório sem tratamento documentado é uma não conformidade grave, ao passo que um desvio bem investigado demonstra maturidade do sistema de gestão. Recomenda-se ainda manter um histórico das participações ao longo dos anos, permitindo identificar tendências de desempenho e priorizar áreas que exigem reforço técnico contínuo.

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Perguntas Frequentes sobre comparação interlaboratorial

Qual frequência ideal de participação em comparações?

Para grandezas críticas (uso frequente, alta criticidade comercial), anual. Para grandezas com uso esporadico, bienal ou ciclo de 4 anos é aceitável. O plano plurianual deve garantir cobertura de todo o escopo de acreditação ao longo do ciclo CGCRE de 4 anos, com priorizacao por risco.

Como tratar resultado não satisfatório em proficiência?

Tratamento como trabalho não conforme (ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 item 7.10): registro formal, análise de causa raiz com método estruturado (5 Porquês ou Ishikawa), avaliação do impacto em resultados emitidos no período correlato, comunicacao a clientes afetados quando necessário, ação corretiva, verificação de eficácia na próxima proficiência. Manter registro completo para auditoria.

Posso usar comparação interna em vez de externa?

Não como substituto. Comparação interna é válida apenas como complementar. A norma exige obtenção de evidência externa de competencia. Quando não há provedor de proficiência para a grandeza, alternativas válidas são: comparação bilateral com outro laboratório acreditado, comparação internacional via institutos metrológicos estrangeiros, ou comparação com material de referência certificado.

Quanto custa participar de proficiência tradicional?

Varia significativamente. Proficiências do INMETRO custam tipicamente entre R$ 2.500 e R$ 8.000 por rodada, dependendo da grandeza. Proficiências internacionais (NIST, PTB, NPL) custam entre USD 1.500 e USD 5.000. Provedores comerciais brasileiros (Cesmec, ISCC) cobram entre R$ 1.500 e R$ 5.000. Inscrição deve estar no orçamento anual do laboratório.

Qual a diferença entre ensaio de proficiência e comparação interlaboratorial?

Ensaio de proficiência é um TIPO específico de comparação interlaboratorial — aquela organizada por provedor acreditado segundo ABNT NBR ISO/IEC 17043:2011, com propósito específico de avaliar desempenho de cada participante. Comparação interlaboratorial é termo mais amplo: inclui proficiência, mas também comparações bilaterais informais, comparações internacionais CIPM/BIPM, etc.

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Conclusão

Comparações interlaboratoriais são mecanismo central de garantia da validade dos resultados em laboratórios brasileiros acreditados. Implementar plano plurianual cobrindo o escopo de acreditação, com priorizacao por risco e tratamento formal de resultados adversos, transforma esse mecanismo de obrigação normativa em ferramenta real de melhoria contínua. Para laboratórios da Rede Brasileira de Calibração (RBC) e da Rede Brasileira de Laboratórios de Ensaio (RBLE), é também a forma mais robusta de demonstrar competencia em auditorias CGCRE.


Termos relacionados a este artigo no Glossário Cirius Quality: Ensaio de proficiência, Garantia da validade dos resultados, Carta de controle, Trabalho não conforme.