Análise de Incerteza de Medição: Guia Completo conforme GUM e ISO 17025
A análise de incerteza é o processo sistemático que todo laboratório de calibração e ensaio acreditado deve realizar para quantificar o grau de dúvida associado aos resultados das suas medições. Quando um certificado de calibração reporta “10,025 bar ± 0,012 bar (k=2)”, o valor após o sinal ± representa a incerteza expandida resultante de uma análise completa de todas as fontes de erro.
Sem uma análise de incerteza adequada, um resultado de medição é apenas um número — não tem significado metrológico. A incerteza é o que permite avaliar se o instrumento está conforme uma especificação, se um produto atende aos requisitos de tolerância, ou se duas medições são estatisticamente equivalentes.
A análise de incerteza é regida pelo GUM (JCGM 100:2008) — Guia para a Expressão da Incerteza de Medição, documento de referência mundial publicado pelo JCGM (Joint Committee for Guides in Metrology), e exigida pela ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017.
Conceitos Fundamentais
Mensurando
A grandeza específica submetida à medição. Exemplo: a pressão indicada por um manômetro a 50% da sua faixa, sob condições ambientais especificadas.
Modelo Matemático da Medição
Equação que relaciona o mensurando às grandezas de entrada (variáveis que influenciam o resultado). Por exemplo, na calibração de um manômetro:
Erro = Indicação do Instrumento − Indicação do Padrão de Referência + Correções
Fontes de Incerteza
Todas as variáveis que podem causar variação no resultado: o instrumento, o padrão, o operador, o ambiente, o método.
Incerteza Padrão
Incerteza expressa como um desvio padrão, denotada por u. É a unidade básica para combinar diferentes contribuições.
Incerteza Combinada
Incerteza padrão resultante da combinação de todas as contribuições, denotada por uc.
Incerteza Expandida
Incerteza combinada multiplicada por um fator de cobertura k (geralmente k=2 para nível de confiança de aproximadamente 95%), denotada por U.
Tipos de Incerteza segundo o GUM
Incerteza Tipo A
Avaliada por métodos estatísticos a partir de uma série de observações repetidas. É calculada como o desvio padrão experimental da média:
uA = s / √n
Onde:
- s é o desvio padrão experimental das observações
- n é o número de observações
Quanto maior o número de observações, menor a incerteza Tipo A. Por isso, recomenda-se realizar pelo menos 10 leituras para cada ponto de calibração.
Incerteza Tipo B
Avaliada por outros meios que não a análise estatística direta. Baseia-se em:
- Certificados de calibração de padrões de referência
- Especificações de fabricantes dos instrumentos
- Experiência prévia com medições similares
- Dados de literatura científica
- Conhecimento técnico do processo de medição
Para incertezas Tipo B, é necessário converter a informação disponível em incerteza padrão. A conversão depende da distribuição assumida:
- Distribuição normal: u = U/k (onde k é o fator de cobertura informado)
- Distribuição retangular: u = a/√3 (onde a é a metade da faixa)
- Distribuição triangular: u = a/√6
Etapas da Análise de Incerteza
Etapa 1 — Identificar o Mensurando
Definir claramente a grandeza que está sendo medida, incluindo as condições nas quais a medição é realizada (temperatura, pressão atmosférica, posição do instrumento).
Etapa 2 — Estabelecer o Modelo Matemático
Escrever a equação que relaciona o mensurando às grandezas de entrada. O modelo é fundamental porque a partir dele se calculam os coeficientes de sensibilidade.
Etapa 3 — Identificar as Fontes de Incerteza
Listar todas as variáveis que afetam o resultado. Use ferramentas como diagrama de Ishikawa para garantir cobertura completa. Fontes típicas incluem:
- Repetibilidade do instrumento
- Resolução do display ou escala
- Incerteza do padrão de referência (do certificado)
- Deriva temporal do padrão
- Efeitos das condições ambientais
- Influência do operador
- Efeitos do método de medição
Etapa 4 — Quantificar Cada Fonte
Calcular a incerteza padrão de cada componente:
- Repetibilidade: Tipo A — desvio padrão experimental de 10+ leituras
- Resolução: Tipo B — resolução/(2×√3) para distribuição retangular
- Padrão: Tipo B — do certificado de calibração, dividido pelo k informado
- Deriva: Tipo B — baseada no histórico de calibrações
Etapa 5 — Calcular Coeficientes de Sensibilidade
Os coeficientes de sensibilidade (ci) são as derivadas parciais do modelo matemático em relação a cada variável. Eles indicam quanto o resultado muda quando uma variável muda em uma unidade.
Etapa 6 — Combinar as Incertezas
Aplicar a lei de propagação de incertezas:
uc = √[Σ(ci × ui)²]
Para variáveis correlacionadas, é necessário incluir os termos de covariância na equação.
Etapa 7 — Calcular a Incerteza Expandida
Multiplicar a incerteza combinada pelo fator de cobertura k:
U = k × uc
Para a maioria das aplicações, usa-se k=2, que corresponde a aproximadamente 95% de nível de confiança para distribuições aproximadamente normais.
Etapa 8 — Reportar o Resultado
O resultado deve ser apresentado como:
Y = y ± U (k=2)
Onde y é o valor medido e U é a incerteza expandida. A unidade deve ser explícita e o número de algarismos significativos coerente.

Exemplo Prático Simplificado
Calibração de um manômetro a 50 bar usando um padrão de referência:
Fontes de incerteza:
- Repetibilidade (10 leituras): uA = 0,003 bar
- Resolução do manômetro (0,1 bar): ures = 0,1/(2×√3) = 0,029 bar
- Padrão de referência (certificado U=0,008 bar, k=2): upad = 0,008/2 = 0,004 bar
- Deriva temporal do padrão: uder = 0,002 bar
- Temperatura ambiente: utemp = 0,005 bar
Incerteza combinada:
uc = √(0,003² + 0,029² + 0,004² + 0,002² + 0,005²) = 0,030 bar
Incerteza expandida (k=2):
U = 2 × 0,030 = 0,060 bar
Resultado: 50,000 bar ± 0,060 bar (k=2)
Importância para Laboratórios Acreditados
A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017, na seção 7.6, exige que laboratórios:
- Avaliem a incerteza de medição em todas as calibrações
- Identifiquem todas as contribuições significativas
- Mantenham procedimentos documentados
- Reportem a incerteza expandida nos certificados
- Treinem o pessoal nas metodologias do GUM
A CMC (Capacidade de Medição e Calibração) declarada pelo laboratório acreditado pela CGCRE/INMETRO é diretamente derivada da análise de incerteza.
Perguntas Frequentes
Qual a diferença entre erro e incerteza?
O erro é a diferença entre o valor medido e o valor verdadeiro (que geralmente é desconhecido). A incerteza é uma estimativa do quanto o valor medido pode estar afastado do valor verdadeiro. O erro é um valor desconhecido; a incerteza é uma estimativa baseada em análise.
Por que usar k=2 e não outro fator?
O fator de cobertura k=2 é adotado por convenção internacional porque, para distribuições aproximadamente normais, ele corresponde a cerca de 95% de nível de confiança. Para níveis de confiança maiores ou menores, usa-se k=3 (99,7%) ou k=1 (68%), respectivamente.
Quando usar Monte Carlo em vez do método GUM?
O método de Monte Carlo (descrito no JCGM 101:2008) é recomendado quando o modelo matemático é altamente não linear, quando as distribuições das fontes de incerteza são significativamente não normais, ou quando há grande disparidade entre as contribuições. Para a maioria das calibrações industriais, o método GUM clássico é adequado.
A incerteza pode ser zero?
Não. Toda medição possui incerteza, mesmo que pequena. Reportar uma incerteza igual a zero indica falha na análise. Sempre há contribuições da resolução do instrumento, do padrão de referência e de outros fatores.
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Conclusão
A análise de incerteza é o que diferencia uma medição confiável de um número aleatório. Dominar a metodologia do GUM, identificar todas as fontes de incerteza e reportar resultados de forma adequada são competências essenciais para qualquer profissional de calibração e metrologia. É também o que permite ao laboratório obter e manter sua acreditação junto à CGCRE/INMETRO.
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