Ação Preventiva em Calibração: Abordagem Baseada em Risco conforme ISO 17025
A ação preventiva em calibração é a medida tomada para eliminar a causa de uma não conformidade potencial — ou seja, um problema que ainda não ocorreu, mas que poderia ocorrer no futuro com base em análise de riscos. Diferentemente da ação corretiva, que reage a problemas já manifestados, a ação preventiva antecipa-se a eles, transformando o sistema de gestão em uma ferramenta proativa.
Em laboratórios de calibração, a ação preventiva é fundamental para construir um sistema robusto e confiável. Quando se identifica que um padrão de referência tem mostrado tendência de drift nos últimos 3 anos, antecipar a recalibração antes que ele saia da tolerância é uma ação preventiva em calibração. Quando um software de gestão atinge o fim de suporte do fabricante, planejar a migração antes do encerramento é outra forma de ação preventiva.
A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 integrou esse conceito em sua abordagem baseada em risco (seção 8.5), exigindo que laboratórios identifiquem e tratem riscos potenciais como parte normal de seu sistema de gestão.
Definição e Contexto Normativo
A ABNT NBR ISO 9000:2015, norma de vocabulário em sistemas de gestão da qualidade, define ação preventiva como a “ação para eliminar a causa de uma não conformidade potencial ou outra situação potencial indesejável”.
Essa definição contém elementos importantes:
- Causa: O foco está em eliminar a origem do problema
- Potencial: Refere-se a algo que ainda não ocorreu
- Não conformidade ou situação indesejável: Engloba diversos tipos de problemas
Diferença entre Ação Corretiva e Preventiva
Compreender a distinção entre essas duas ferramentas é fundamental para profissionais da qualidade:
- Ação Corretiva: Reage a uma não conformidade já ocorrida. Origem: análise de causa raiz de problemas detectados. Foco: prevenir recorrência
- Ação Preventiva: Antecipa-se a uma não conformidade potencial. Origem: análise de riscos e tendências. Foco: prevenir ocorrência
Um sistema de gestão maduro combina os dois tipos de ação. Apenas reagir a problemas (ação corretiva) gera ciclo permanente de problemas-soluções. Apenas tentar prevenir tudo (ação preventiva) é caro e ineficiente. O equilíbrio depende da maturidade do sistema e da criticidade dos processos.
A Abordagem Baseada em Risco da ISO 17025:2017
A versão 2017 da norma ABNT NBR ISO/IEC 17025 trouxe uma mudança conceitual importante: substituiu a cláusula específica de ação preventiva (presente na versão 2005) por uma abordagem baseada em risco integrada ao sistema de gestão. A seção 8.5 estabelece que o laboratório deve:
- Considerar os riscos e oportunidades associados às suas atividades
- Planejar ações para abordar esses riscos e oportunidades
- Integrar e implementar essas ações nos seus processos
- Avaliar a eficácia das ações tomadas
O termo “ação preventiva” não aparece mais explicitamente, mas a essência do conceito está integrada na nova abordagem. Toda análise de risco que resulta em ação para prevenir uma não conformidade potencial é, em essência, uma ação preventiva.
Origens das Ações Preventivas
Análise de Riscos Sistemática
Análise estruturada dos riscos associados às atividades do laboratório, utilizando ferramentas como FMEA, HAZOP ou matriz de risco. Cada risco identificado pode demandar ação preventiva.
Análise de Tendências
Padrões em dados históricos que apontam problemas futuros. Por exemplo, um padrão de referência cuja tendência de drift indica que ele estará fora de tolerância no próximo ano.
Auditorias Internas
Embora auditorias geralmente identifiquem não conformidades já existentes, podem também observar pontos que indicam riscos futuros. Essas observações geram oportunidades de ação preventiva.
Reuniões de Análise Crítica pela Direção
A análise crítica anual frequentemente identifica oportunidades de melhoria que se materializam como ações preventivas, especialmente quando ligadas a mudanças no contexto do laboratório.
Lições Aprendidas e Benchmarking
Experiências de outros laboratórios, problemas reportados em fóruns técnicos ou comparações com referências do setor podem indicar problemas potenciais que ainda não se manifestaram.
Mudanças no Contexto
Novos requisitos regulatórios, mudanças tecnológicas, novos clientes com requisitos diferenciados, ou alterações na estrutura organizacional. Cada mudança traz riscos potenciais que podem ser tratados preventivamente.
Exemplos Práticos em Laboratórios de Calibração
Padrão de Referência com Tendência ao Limite
Um padrão de pressão de classe 0,1% mostrou nos últimos 3 anos uma tendência de drift de 0,02% por ano. Análise: em 2 anos, o padrão pode estar fora da tolerância. Ação preventiva: programar antecipadamente a substituição do padrão antes da próxima recalibração crítica.
Equipamento com Manutenção Próxima
Uma balança analítica está há 4 anos sem manutenção preventiva. Histórico do fabricante indica que problemas tendem a surgir após 5 anos. Ação preventiva: contratar manutenção preventiva antes do limite de 5 anos para evitar parada não planejada.
Software com Fim de Suporte
O software de gestão de calibrações terá fim de suporte do fabricante em 18 meses. Análise: usar software sem suporte gera riscos de segurança e de não conformidades. Ação preventiva: avaliar e implementar migração para nova plataforma com prazo adequado.
Treinamento de Pessoal
Nova versão de norma será publicada no próximo ano com mudanças importantes nos métodos de calibração. Ação preventiva: treinar a equipe técnica antes da publicação para garantir transição suave.
Backup e Continuidade de Negócio
O laboratório opera com servidor único de banco de dados. Análise: falha do servidor causaria perda de dados críticos e parada das operações. Ação preventiva: implementar redundância e backup off-site antes que ocorra falha.
Processo Estruturado de Ação Preventiva
Etapa 1 — Identificação Sistemática de Riscos
Estabelecer rotina periódica para identificar riscos. Ferramentas:
- Brainstorming estruturado com a equipe
- Análise FMEA dos processos críticos
- Revisão de tendências de dados históricos
- Análise de mudanças no contexto interno e externo
Etapa 2 — Avaliação de Riscos
Para cada risco identificado, avaliar:
- Probabilidade: Quão provável é a ocorrência (escala 1-5)
- Impacto: Quão grave seria o problema (escala 1-5)
- Detectabilidade: Facilidade de identificar antecipadamente (em FMEA)
- NPR (Número de Prioridade de Risco): Probabilidade x Impacto x Detectabilidade
Etapa 3 — Priorização
Riscos com NPR mais elevado são tratados primeiro. Recursos limitados exigem foco nos riscos mais relevantes.
Etapa 4 — Planejamento de Ações
Para cada risco selecionado, definir:
- Ação específica a tomar
- Responsável pela implementação
- Prazo realista
- Recursos necessários
- Indicadores de sucesso
Etapa 5 — Implementação
Execução das ações conforme planejamento, com documentação adequada das atividades realizadas e seus resultados.
Etapa 6 — Monitoramento e Verificação
Acompanhamento dos indicadores definidos para verificar se a ação preventiva foi efetiva. Diferente da ação corretiva, a verificação pode ser mais difícil porque o objetivo é prevenir algo que não aconteceria de qualquer forma.
Etapa 7 — Revisão Periódica
A análise de riscos deve ser revisada periodicamente (tipicamente anualmente, na análise crítica pela direção, ou quando há mudanças significativas no contexto).
Ferramentas de Análise de Riscos
FMEA (Failure Mode and Effects Analysis)
Análise sistemática de modos potenciais de falha e seus efeitos. Identifica:
- Modos de falha possíveis
- Causas potenciais
- Efeitos no sistema
- Severidade, ocorrência e detecção
- Ações recomendadas
Matriz de Risco
Visualização gráfica de probabilidade versus impacto, com áreas codificadas por cores (verde, amarelo, vermelho) indicando o nível de tratamento necessário.
Análise SWOT
Forças, fraquezas, oportunidades e ameaças. Útil para análise estratégica e identificação de riscos no contexto do laboratório.
Diagrama Bow-Tie
Análise integrada de causas (lado esquerdo) e consequências (lado direito) de um evento central, com barreiras preventivas e mitigadoras.
HAZOP (Hazard and Operability Study)
Análise estruturada de processos através de palavras-guia (não, mais, menos, parte de, etc.) para identificar desvios potenciais.

Benefícios das Ações Preventivas
- Redução de custos: Prevenir problemas é geralmente mais barato que tratá-los após ocorrerem
- Maior confiabilidade do sistema: Menos interrupções e atrasos
- Satisfação dos clientes: Menos reclamações, mais consistência nos prazos
- Cultura organizacional proativa: Equipe mais engajada com a melhoria contínua
- Vantagem competitiva: Sistema de gestão mais maduro que diferencia o laboratório
- Conformidade normativa: Atendimento aos requisitos da ISO 17025:2017
- Melhor planejamento: Ações antecipadas evitam emergências
Erros Comuns na Implementação
- Confundir com ação corretiva: Tratar problemas já ocorridos como ação preventiva
- Análise superficial de riscos: Identificar apenas riscos óbvios, deixando os menos visíveis
- Tentar prevenir tudo: Falta de priorização gera dispersão de recursos
- Falta de monitoramento: Implementar e esquecer, sem verificar eficácia
- Não envolver a equipe: Análise apenas pela gestão perde conhecimento operacional
- Documentação inadequada: Sem registros, não há demonstração para auditorias
Indicadores de Maturidade
Um sistema com cultura preventiva consolidada apresenta:
- Razão saudável entre ações preventivas e corretivas
- Análise de riscos atualizada e revisada periodicamente
- Equipe treinada em ferramentas de análise de risco
- Ações preventivas documentadas e implementadas
- Tendência decrescente de não conformidades graves
- Capacidade de responder a mudanças sem disrupção
Perguntas Frequentes
A ISO 17025:2017 ainda exige ação preventiva?
Não literalmente, mas a essência do conceito está integrada na abordagem baseada em risco da seção 8.5. O laboratório deve identificar riscos e oportunidades e implementar ações para tratá-los, o que efetivamente equivale a ações preventivas.
Como diferenciar ação preventiva de melhoria contínua?
A ação preventiva foca em eliminar causas de não conformidades potenciais. A melhoria contínua é mais ampla, buscando aumentar o desempenho do sistema (eficiência, eficácia, satisfação) mesmo quando não há problemas potenciais identificados. Toda ação preventiva é uma forma de melhoria, mas nem toda melhoria é prevenção.
Qual a frequência recomendada de análise de riscos?
Mínimo anual, na análise crítica pela direção. Recomenda-se também sempre que houver mudanças significativas no contexto do laboratório (novo escopo, mudança de pessoal-chave, aquisição de novos equipamentos, alteração de regulamentos).
Auditorias externas avaliam ações preventivas?
Sim. A CGCRE/INMETRO avalia se o laboratório possui abordagem baseada em risco implementada, com identificação documentada de riscos e ações tomadas. Sistemas sem evidências de análise de riscos geralmente recebem não conformidades.
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Conclusão
A ação preventiva em calibração, agora integrada na abordagem baseada em risco da ISO 17025:2017, é o que diferencia laboratórios reativos de laboratórios proativos. Sistemas que apenas corrigem problemas após sua ocorrência tendem a ficar presos em ciclos repetitivos de não conformidades. Laboratórios que dominam a análise de riscos e implementam ações preventivas constroem sistemas de gestão verdadeiramente robustos e maduros.
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